
História do Brasil – Parte 10: A Redemocratização, o Governo Dutra e o Retorno de Vargas (1945–1954)
HISTÓRIAS DO BRASIL
Blog Toda História
2/11/2026
O Fim do Estado Novo e o Início da Redemocratização
Em 1945, após quinze anos de poder — sendo oito deles sob a ditadura do Estado Novo — Getúlio Vargas foi deposto por setores militares que temiam sua permanência no governo. O Brasil vivia um momento de transição. A Segunda Guerra Mundial havia terminado, e o mundo assistia ao fortalecimento de regimes democráticos no Ocidente. Tornava-se contraditório manter uma ditadura interna enquanto o país havia lutado contra regimes autoritários na Europa.
A pressão popular por eleições diretas crescia. Manifestações exigiam o retorno das liberdades políticas, da pluralidade partidária e de uma nova Constituição. Assim teve início o processo de redemocratização brasileira.
As Eleições de 1945 e o Governo Eurico Gaspar Dutra
Ainda em 1945, foram convocadas eleições presidenciais e para uma Assembleia Constituinte. O general Eurico Gaspar Dutra, ex-ministro da Guerra de Vargas, venceu o pleito pelo voto direto.
Seu governo representou uma fase de transição: encerrava-se o autoritarismo do Estado Novo e iniciava-se uma nova etapa constitucional.
Em 1946, foi promulgada uma nova Constituição. Ela restaurava direitos civis e políticos, garantia liberdade de imprensa, de associação e de expressão, além de reafirmar o regime presidencialista. Importante destacar que muitos direitos trabalhistas criados na Era Vargas foram mantidos, demonstrando que já estavam incorporados à estrutura social do país.
A Nova Configuração Partidária
Com a redemocratização, novos partidos ganharam protagonismo:
PSD (Partido Social Democrático) – representava principalmente elites regionais e setores administrativos ligados ao antigo governo.
PTB (Partido Trabalhista Brasileiro) – vinculado ao trabalhismo varguista e aos sindicatos urbanos.
UDN (União Democrática Nacional) – reunia setores liberais e conservadores, sendo forte oposição a Vargas.
Essa reorganização partidária marcou o início de uma democracia competitiva, mas também profundamente polarizada.
A Influência da Guerra Fria
O cenário internacional passou a ser dominado pela Guerra Fria, disputa ideológica entre Estados Unidos e União Soviética. O governo Dutra alinhou-se aos Estados Unidos e adotou postura anticomunista.
Em 1947, o Partido Comunista Brasileiro (PCB) foi colocado na ilegalidade, e seus parlamentares perderam seus mandatos. O Brasil assumia, oficialmente, posição dentro do bloco ocidental.
Política Econômica e o Plano SALTE
Inicialmente, Dutra adotou uma política econômica liberal, abrindo o mercado às importações. O consumo de produtos estrangeiros aumentou, mas as reservas cambiais brasileiras foram rapidamente reduzidas.
Diante do desequilíbrio, o governo passou a adotar medidas de controle e planejamento. Surgiu o Plano SALTE (Saúde, Alimentação, Transporte e Energia), que buscava organizar investimentos estratégicos. Contudo, dificuldades financeiras e administrativas limitaram seus resultados.
Apesar do regime democrático, o período foi marcado por greves operárias, disputas políticas e debates sobre o papel do Estado na economia.
O Retorno de Getúlio Vargas (1951–1954)
Em 1950, Getúlio Vargas voltou a disputar a presidência — desta vez pelo voto direto. Sua candidatura mobilizou trabalhadores e setores populares que viam nele um símbolo de proteção social e desenvolvimento nacional.
Ele venceu as eleições e retornou ao poder em 1951.
Diferentemente do Estado Novo, agora governava dentro de um regime democrático, enfrentando oposição intensa no Congresso e na imprensa, especialmente da UDN.
Seu segundo governo retomou o projeto nacional-desenvolvimentista, defendendo maior intervenção do Estado na economia.
A Criação da Petrobras e o Projeto Nacional-Desenvolvimentista
Um dos marcos mais importantes do segundo governo Vargas foi a criação da Petrobras, em 1953.
A Petrobras (Petróleo Brasileiro S.A.) foi criada como uma empresa estatal com o objetivo de controlar a exploração, produção e refino do petróleo no Brasil. Naquele período, o petróleo era considerado um recurso estratégico fundamental para o desenvolvimento industrial, para o transporte e para a autonomia econômica do país.
Até então, o Brasil dependia fortemente da importação de combustíveis e da atuação de empresas estrangeiras no setor energético. A campanha “O petróleo é nosso” mobilizou militares, estudantes, trabalhadores e setores nacionalistas, defendendo que as riquezas naturais brasileiras deveriam ser exploradas pelo próprio Estado brasileiro, e não por companhias internacionais.
A criação da Petrobras fazia parte de um projeto maior conhecido como nacional-desenvolvimentismo, que defendia forte participação do Estado na economia para impulsionar a industrialização e reduzir a dependência externa.
No entanto, a proposta enfrentou forte resistência. Setores da oposição, especialmente ligados à UDN, argumentavam que o Estado não deveria monopolizar a exploração do petróleo. Empresários, grupos liberais e interesses estrangeiros também criticavam a medida, alegando que ela afastaria investimentos internacionais e ampliaria excessivamente a intervenção estatal na economia.
A Proposta da Eletrobrás
Dentro desse mesmo projeto, Vargas propôs a criação da Eletrobrás, uma empresa estatal voltada para organizar e ampliar a geração e distribuição de energia elétrica no país.
Na década de 1950, o Brasil enfrentava sérios problemas de infraestrutura energética. A produção de energia era insuficiente para sustentar o crescimento industrial. Muitas empresas do setor elétrico eram estrangeiras ou privadas, e não havia coordenação nacional eficiente.
A Eletrobrás teria como objetivo centralizar o planejamento energético, expandir a produção de eletricidade e garantir que a energia fosse tratada como um setor estratégico para o desenvolvimento nacional.
Assim como a Petrobras, o projeto da Eletrobrás enfrentou forte oposição no Congresso. Críticos afirmavam que a proposta representava estatização excessiva da economia. A resistência política foi tão intensa que o projeto acabou sendo retardado, e a Eletrobrás só seria criada anos depois, em 1962.
Crise Política e Econômica
O governo enfrentava inflação crescente, tensões sociais e acusações de corrupção. Greves e disputas entre empresários e trabalhadores ampliavam a instabilidade.
A crise atingiu seu ponto máximo em 1954, após o atentado contra o jornalista e opositor Carlos Lacerda. Investigações apontaram envolvimento de membros da guarda pessoal do presidente, o que gerou enorme pressão política.
Setores militares passaram a exigir a renúncia de Vargas.
O Desfecho de 1954
Na madrugada de 24 de agosto de 1954, diante da crise política e da iminência de sua deposição, Getúlio Vargas tirou a própria vida no Palácio do Catete.
Antes, deixou a famosa Carta-Testamento, documento que causou profunda comoção nacional. Multidões foram às ruas, e sua morte alterou temporariamente o cenário político.
O gesto final consolidou sua imagem como uma das figuras mais marcantes e controversas da história brasileira.
O Significado do Período (1945–1954)
A redemocratização iniciada em 1945 consolidou instituições democráticas importantes, mas revelou também a intensidade das disputas ideológicas e sociais no Brasil do pós-guerra.
Entre avanços constitucionais, polarização política e fortalecimento do modelo desenvolvimentista, o país caminhava para uma nova fase de instabilidade que culminaria, anos depois, em outra ruptura institucional.
A história do Brasil seguia marcada por ciclos de democracia, crise e transformação.
Carta-Testamento
Getúlio Vargas
Mais uma vez as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e novamente se desencadeiam sobre mim. Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam, e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes.
Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao governo nos braços do povo. A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho.
A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás e, mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculada até o desespero. Não querem que o trabalhador seja livre.
Não querem que o povo seja independente. Assumi o Governo dentro da espiral inflacionária que destruía os valores do trabalho. Os lucros das empresas estrangeiras alcançavam até 500% ao ano. Nas declarações de valores do que importávamos existiam fraudes constatadas de mais de 100 milhões de dólares por ano. Veio a crise do café, valorizou-se o nosso principal produto. Tentamos defender seu preço e a resposta foi uma violenta pressão sobre a nossa economia, a ponto de sermos obrigados a ceder.
Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo, renunciando a mim mesmo, para defender o povo, que agora se queda desamparado. Nada mais vos posso dar, a não ser meu sangue.
Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida. Escolho este meio de estar sempre convosco.
Quando vos humilharem, sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e vossos filhos. Quando vos vilipendiarem, sentireis no pensamento a força para a reação.
Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. Ao ódio respondo com o perdão.
E aos que pensam que me derrotaram respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém.
Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue será o preço do seu resgate. Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo.
Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História.
Rio de Janeiro, 23 de agosto de 1954
Getúlio Vargas
Leituras recomendadas
A Revolução de 1930 marcou o colapso da República Velha e abriu caminho para uma profunda reorganização política, econômica e social no Brasil. O período varguista foi caracterizado pela centralização do poder, pela construção de um Estado mais interventor, pela redefinição das relações de trabalho e por intensos conflitos entre projetos autoritários e democráticos. As leituras a seguir ajudam a compreender tanto o evento fundador de 1930 quanto os diferentes momentos do governo Getúlio Vargas, articulando processo histórico, análise estrutural e trajetória política.
A Revolução de 1930: O conflito que mudou o Brasil — Rodrigo Trespach
Por que ler:
O livro analisa a Revolução de 1930 como um processo complexo, resultado de disputas regionais, crises políticas e transformações sociais que colocaram fim à República Velha. A obra apresenta uma narrativa clara e bem contextualizada, destacando os principais atores e tensões do período.
Ideal para:
Compreender as causas, os acontecimentos e os impactos imediatos da Revolução de 1930.


Getúlio Vargas — Boris Fausto
Por que ler:
Nesta obra, Boris Fausto analisa a trajetória política de Getúlio Vargas, relacionando sua atuação pessoal aos grandes processos históricos do período. O livro equilibra biografia e análise histórica, ajudando a compreender o papel de Vargas na história do Brasil.
Ideal para:
Leitores que desejam compreender o personagem Getúlio Vargas dentro do contexto da Era Vargas.


A Era Vargas (1930–1945) – Volume 1 — Luciano Aronne de Abreu & Marco Aurélio Vannucchi
Por que ler:
Este volume aborda os primeiros anos do governo Vargas, analisando o Governo Provisório e o período constitucional. O livro destaca a reorganização do Estado, as disputas políticas e as transformações institucionais iniciadas após 1930.
Ideal para:
Aprofundar o entendimento sobre a formação do regime varguista e seus primeiros desdobramentos.




A Era Vargas (1930–1945) – Volume 2 — Luciano Aronne de Abreu & Marco Aurélio Vannucchi
Por que ler:
Dando continuidade ao volume anterior, esta obra se concentra no Estado Novo, explorando o autoritarismo, a propaganda política, o controle social e o fim do regime em 1945. O livro oferece uma análise detalhada das estruturas de poder do período.
Ideal para:
Entender a consolidação e o declínio do Estado Novo.
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